sexta-feira, abril 15, 2011

A última música - revelações

Madrugada de sexta-feira, internet caiu e resolvi assistir um filme. Cliquei no primeiro que vi, já tinha baixado esse no meu computador, mas não sei por que não tinha assistido ainda.
Download veio com o áudio em Português e Inglês, ao mesmo tempo. Tive que prestar bastante atenção para conseguir entender. Valeu à pena o esforço.
Me identifiquei muito com a história. Um pouco parecida com a minha. Garota revoltada,durona e ao mesmo tempo com o coração mole, apaixonada.
Muitos não sabem o que vivi. Aos 9 anos descobri que o homem que eu chamava de pai era meu padrasto. Descobri isso ouvindo atrás da porta minha mãe falar com uma irmã de oração que meu pai era outro. Caminhando com ela em direção de casa perguntei se o que eu tinha ouvido era verdade. Ela sem meias palavras disse que sim. Daí em diante resolvi procurá-lo, afinal, eu tinha um pai, de sangue, aquele quem me fez, não deixando de ter consideração por aquele quem me criou, que por muitas vezes chamei de pai.
Fiquei 5 anos de minha vida procurando meu pai. Ninguém queria me dar pistas. Minha mãe só falava que não valia à pena. Mas nada me impediu de ir à busca, nem mesmo o preço de um cartão telefônico na época, após minha tia dar a primeira pista que sabia que ele era motorista de ônibus, se chamava José Ferreira Lima e tinha o apelido de Pimenta. Juntava as moedas que conseguia. De vez em quando pedia dinheiro para lanchar e deixava de comer para juntar e comprar um cartão de 20 unidades, correr até um telefone público e ligar para todas as empresas de ônibus dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Essas ligações viraram rotina em minha vida. Conforme ia juntando dinheiro, ia comprando cartões e ligando. Mais tarde minha tia me deu outra pista que a família dele era de Natividade e que eu tinha dois irmãos. Onde eu ia ficava imaginando que um poderia ser meu irmão. Ficava até com medo de namorar, imagina, correndo o risco de namorar meu próprio irmão. Buscava semelhanças nos meninos que conhecia, imaginando ser meu sangue.
Após muitos cartões telefônicos comprados, a rotina de todos os dias ligar para uma empresa diferente, ter passado por tantas situações não muito boas na vida, finalmente encontrei meu pai, já com 14 anos. Lembro como se fosse hoje, de um telefônico público, perto de onde morava, pra quem conhece, ali na pracinha do bairro Niterói, próximo a ponte, em uma tarde ensolarada, liguei para uma empresa de Rio Bonito, era uma das últimas tentativas, sempre a tarde depois do colégio.
Um senhor atendeu: - Alô.
- Alô. Aí trabalha José Ferreira Lima, motorista de ônibus, mais conhecido como Pimenta? Perguntei.
- Espera aí. Disse ele.
Após alguns segundos, eu aflita porque os créditos iam embora.
- Ele trabalha aqui sim.
- Sério moço? Perguntei sem acreditar.
Senhor: - É, ué. Aqui trabalha um Pimenta.
- Posso falar com ele? Perguntei ansiosa.
Senhor: - Só um minuto que vou chamá-lo.
Nossa! Aí começou meu desespero. Não sabia se ficava nervosa porque meus créditos estavam acabando ou porque seria a primeira vez que iria ouvir a voz do meu pai.
-Alô. Disse uma voz grossa, parecia de um homem bravo.
Eu: - Alô. Você é o José Ferreira Lima, o Pimenta?
- Sim, sou eu. Mas quem está falando? Perguntou ele.
- Sua filha, Bianca. Conhece? Nesse momento fechei os olhos para ficar bem atenta no que ele iria responder.
- Minha filha?! Disse ele com um ar de dúvida.
Nessa hora fiquei brava. Imagina só um pai não se lembrar que tem uma filha. Aí misturou nervosismo com raiva e tudo mais...uma mistura de sentimentos.
- Sim, sua filha, filha de Rosinete, moro em Itaperuna...e fui dando todos os dados para que ele pudesse se lembrar de mim.
- A sim, agora me lembro de você. Disse ele ainda com voz de bravo.
Meu Deus! Depois disso não conseguia mais controlar meus pensamentos e nem sentimentos. Foi uma grande confusão na minha cabeça e no meu coração.
Conversamos bem rápido, porque já estava se esgotando meus créditos, e já marcamos um dia e hora certos para nos encontrarmos no portão do colégio onde estudava. Não me lembro ao certo o dia da semana, mas não me esqueço da hora, 12h em ponto. O som do sinal de saída do colégio fez meu coração disparar. Pronto! Era a hora de conhecer meu pai.
Nossa! Conto isso chorando, agora, às 03:55h da madruga.
No telefone tinha perguntado meu pai como saberia se era ele em frente do colégio, qual a cor da roupa que ele estaria e tal, ele disse que não precisava, que quando meu olhar fosse procurá-lo, encontraria. Foi dito e feito. Ao sair pelo portão, comecei a procurá-lo em meio a um monte de estudantes, horário de pico de saída de colégio, e lá estava ele, já vindo em minha direção e sem falar nada, nos abraçamos. Imagina se fosse outra pessoa, rsrs, mas nossos corações já sabiam. Aquela coisa de instinto de pai né.
Ali via a minha vida mudar completamente. Me enganei. Apenas conheci meu pai.
Em A última música o pai da então rebelde Ronnie havia se separado da esposa há muito tempo e ela nunca tinha aceitado. Meu pai abandonou minha mãe e eu nunca fiquei sabendo. A diferença é que Steve sabia que tinha uma filha e eu, até 9 anos, não sabia da existência de meu pai, nem mesmo ele tinha certeza da minha. Steve sempre mandava cartas para a filha, ela nunca leu, e eu procurando letras, nomes de empresas de ônibus, telefones durante 5 anos para achar o meu. Steve escondeu dos filhos o câncer que tinha e eu ainda escondo do meu pai o câncer que ele me causou. Aprendi no filme que mesmo com todos os problemas, traumas, mágoas, tudo isso é curado e o amor verdadeiro de pai para filho pode renascer.
Ronnie lutou ao lado do pai até o fim. Eu, antes mesmo de conhecê-lo, já lutava por ele.
Queria ter a oportunidade de ter meu pai ao meu lado a todo o tempo. Sinto sua falta a todo instante. Pode ser uma pessoa distante, mas afinal, é meu pai. Queria viver mais tempo com ele. Preparar-lhe um café da manhã. Convidar todos da família para experimentar minha deliciosa lasanha, na casinha dele. Uma coisa ele me disse e também vi no filme, depois que morre, já era.
Ah! Esqueci de contar. Tenhos 2 irmãos lindos e uma irmãzinha gatíssima. Detalhe: todos de olhos claros, menos eu.
Minha avó paterna morreu há alguns meses. Não tive muita oportunidade de conviver com ela. Mas antes dela ir, na sua última noite no hospital, eu consegui dizer: vovó, te amo!
Ainda tenho a esperança de dizer o mesmo para o meu pai.

5 comentários:

Laysa disse...

Bonita sua história mas ao mesmo tempo triste, você teve muita coragem de correr atras, e de querer descobrir quem era seu pai de verdade.

Ana disse...

Que história de garra, Bianca... Não conhecia

Anônimo disse...

Ei Bianca,adoro seu pai!!!Sou prima dos seus irmãos!!!Que história...,emocionante!!!Bjos ,Bruna.

Anônimo disse...

Cara, juro que chorei lendo isso .. mas você ta certissima, continue assim (: beijos Paloma.

Bianca Marques disse...

Eu consegui dizer "eu te amo" para meu pai.